quarta-feira, 27 de julho de 2016

                             A FLORESTA DE HÉCATE  

                           


Naquela manha, a  bruxa  da neve  sentiu-se ofendida, por ter nascido um cogumelo onde  ela havia plantado a  ultima folha de um plátano. Então, a bruxa estendeu seu manto, tricotado  com fios de teia de aranha, enrijecidos com geada,  congelando o vale. Aquele foi  o primeiro dia do  inverno mais rigoroso na terra. E Hécate roubaria todas as folhas das arvores, deixando-as nuas.Sem  folhas, elas  clamavam ao sol que aquecessem seus galhos. E o sol, foi coberto por nuvens escuras.                                                                                                                 
 Em sua cabana, a Dama do bosque estava protegida, mas foi atraída por  sons da floresta, embrenhando-se na mata. A cada passo, esperava encontrar  elementais  encantados. Tropeçou  ao lado do cogumelo, acreditando  que dentro dele,  habitava  um duende.                                                                                                                                                          
Adormeceu ali, sonhando ser  uma fada.                                                                                
                                                                                                                                                 
   



Atravessou um portal, erguido com paredes de gelo. Por traz de cortinas em  farrapos,       desvendou um mundo encantado, onde a magia se faz ao toque, com a ponta dos dedos.                                                                                                                                                   

   
 


Encontrou-se com ela mesma, ainda  criança, observando  um alce. Ao ser tocado,  transformou-se
num unicórneo. Naquele momento, todos os gnomos, fadas e duendes da floresta, surgiram diante  dela, entoando a  mesma canção e dançaram  por toda a noite, até o raiar do sol,  quando derreteu   o gelo encobrindo  a floresta, anunciando o inicio da primavera mais florida das ultimas   eras.             



    

Denize Domingos ; alinhavando pensamentos 





                                               Loreena McKennitt - The Mummer's Dance 



  

domingo, 6 de março de 2016

Dia 8 de Março , dia de Luta e Reflexão





Minha produção artística sempre abordou o universo feminino e seus reflexos, estando sujeita a opiniões e conceitos de uma sociedade machista, onde a livre expressão é constantemente reprimida.
Nesta linguagem sensível da arte, há entre a obra e apreciador, pontes ou abismos, aproximando, afastando, individualizando diferentes realidades. 
Mudos diálogos proporcionam sensações, emoções interpretadas de acordo com motivações pessoais, inerentes aos objetivos propostos por mim. 
No entanto, a aparente passividade e inércia de qualquer obra exposta é criticada, sendo absorvida tanto por pessoas sensíveis, emotivas, que a assimilam e contemplam , quanto por aqueles que sequer compreendem a sutileza de tal linguagem.  
Ainda assim, ao ser simplesmente observada ou apreciada segundo conceitos diversos, a arte é absorvida, fundindo-se a outras realidades, provocando imprevisíveis reações.
Mesmo na poética da arte, em suas diferentes manifestações, deflagram-se conflitos, instigados por interpretações alienadas da obra.  A moral segundo arcaicos padrões individualizados, opõe-se a criatividade e emoções da autora, que em meu caso, tenta ultrapassar limites, romper tabus, expondo além de imagem, minhas vísceras, pois não retrato apenas figuras, dou vida a elas.  
Não sendo apenas minha obra alvo de criticas, serei amputada se sucumbir a mudos julgamentos e críticas. A retratação do corpo feminino, a expressão do corpo, através da dança, a poética de um universos surreal, traduzindo emoções, saltando das páginas de livros , animadas em videos, são uma ínfima parte de tudo que tenho a revelar.
Paralelo ao surrealismo, na ausência da criatividade, extravasando conturbados sentimentos, sublimados através da arte, busco por meio de meu trabalho, sensibilizar o coração das 
pessoas. Penso em abrir esta transparente cortina que me protege em meu mundo e por vezes, me desnuda.



















Ilustradas  em  suaves tons, a literatura pode ser inspirada em reais histórias. Meninas e mulheres desaparecidas, submersas no  mundo do crime. Atacadas por desconhecidos ou homens  ligados a elas, quando os crimes não resultam em morte, muitas vezes nem são denunciados.  
Há poucos anos, assassinatos  praticados por homens com orgulho ferido, eram considerados  crimes passionais, em defesa da honra, tendo  penas reduzidas. Atualmente, devido ao empenho de movimentos feministas, a legislação  prevendo punição de crimes contra a mulher é mais  rigorosa. No entanto, em diversos países os direitos e igualdade social entre homens e mulheres está longe do aceitável. No Brasil, país de grande descendência africana, ofender uma pessoa afrodescendente usando o termo "negro", pode resultar em pagamento de indenização por danos morais, prisão e pagamento de  fiança. 
Um homem ao ofender uma mulher publicamente, usando o termo "prostituta" ou algo semelhante, mesmo que nunca tenha se deitado com ela, em nada resulta. A grande maioria das mulheres se sujeitam e estimulam o machismo, considerando normal tais ofensas. Comemorar o dia internacional da mulher, é reforçar a luta pela igualdade de direitos, lembrando  que o machismo se manifesta em  ambos os sexos, não somente através da violência física, mas também por gestos e palavras. 

Denize Domingos 


















Este vídeo mostrando  uma mulher sendo agredida,  foi retirado da internet, mas  pode ser visto em alguns sites. 








   Dignifica - Lila Downs 





                                  

No dia internacional da mulher, minha homenagem vai para meu companheiro   e todos os  homens e mulheres  que  lutam lado a lado, defendendo direitos, demonstrando   na prática   conceitos  ideologicamente   tão deflagrados. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Machismo no mundo encantado

Interpretando personagens








A ideia era escrever enredos usando fortes personagens femininas, enfatizando o aspecto emocional de cada uma delas.
Me surpreendi percebendo interpretações machistas mesmo dentro do surrealismo. Tanto uma cigana beduína que vagava por desertos e vales contando historias, quanto a sereia atraindo homens com seu canto, ambas, foram consideradas vadias (putas) por alguns leitores.
Em nenhum momento explicitei ou sugeri promiscuidade ou liberação sexual destas personagens. No entanto, o fato de serem mulheres sensíveis, delicadas maternais e também libertarias e aguerridas, não subjugadas as suas paixões e condições estabelecidas nos contos de fadas, elas não esperam por um príncipe salvador, transgredindo as normas do mundo encantado.
O mestre protetor da cigana, sábio e desprendido, orientou-a para que seguisse seu destino. idealista, ela o abandonou para ir em busca de liberdade, porem, nunca a encontrou, A liberdade utópica relacionada aos peregrinos ciganos, nada mais é do que uma infinita estrada, montando acampamentos e tendas a cada pausa de ânsia por caminhar. 
Em contraponto, a sereia que foi uma valente índia guerreira, assassinada por seu pai e irmãos, foi jogada no rio, de onde os peixes a ressuscitaram transformando-a em uma dúbia criatura, metade peixe, metade mulher. Esta definição de mulher peixe, expressa a condição da mulher objeto, que é vista por alguns homens como um ser extremamente sensual, tendo sua imagem camuflada em sentimentos e medos dispersos numa postura de auto proteção. 
Assim, o universo feminino, não se desvenda por homens com conceitos machistas, cujas impressões não ultrapassam aparências, desejando possuir algo alem de suas capacidades de compreensão.

 O etéreo mundo encantado de onde busco tais personagens, imersos em anseios e questionamentos particularmente femininos, sustentam-se num nível sensível, em que a poesia aflora nos poros das personagens, antes das palavra formando metáforas e enigmas jamais desvendados por apegos e lógicas.


Denize Domingos























quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


               
cartinha ao Papai Noel 



Papai Noel,

Acreditava em fadas, gnomos, duendes, anjos,.. tenho medo de bruxas do mal, diabo e demônios. Mas nunca confiei muito neste velhinho de vermelho.

Sempre fui maluquinha, mas muito observadora.Percebia próximo ao natal meu pai fugindo aos sábados, retornando com ar mais feliz do que de costume, tentando esconder os pacotes que trazia. 
Em todos natais, as crianças da vizinhança se encontravam la em casa, para ver e brincar com nossos presentes (os mais lindos lançamentos da Estrela). 
Eu sabia que o bom velhinho lá em casa era o meu pai e me entristecia ver outras crianças com brinquedos mais simples,porem, trazidos pelo Papai Noel. 
Eu queria que meu pai não precisasse trabalhar tanto para comprar nossos brinquedos e ficava com pena de algumas crianças por não receberem presente algum. 
As luzes do pinheirinho enfeitado na rua, piscavam a noite inteira, ascendendo em meu coração o espirito do natal. No armazém próximo, vendiam sonhos... Junto com merengues, vinham bonequinhos para montar o presépio. Convencia minhas amigas daqueles doces serem mais saborosos que outras guloseimas.Em poucos dias o presépio ficava completo e todas as noites a criançada se reunia em torno do pinheiro. Olhávamos não as luzes coloridas, piscantes, mas para o céu, procurando a estrela guia, anunciando o nascimento de Jesus.


Ensaios da coletânea Memórias de Luíza
DD







                                                          Família Dias, Hino de Reis 


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015



AO MEU ANJO DA GUARDA: 


Dizem...que no dia do aniversário, nosso anjo da guarda realiza um pedido. Não tenho problemas com  minha idade, me despeço dos 52 anos de questionamentos, vivências e nenhuma  certeza absoluta, saudando o novo tempo que me aguarda. Diante do espelho não me assusto, no fundo dos meus olhos enxergo o mesmo brilho de quando era menina: A criança pequena, esperando a mãe, aflita  por ter ficado sozinha, preocupada com  meu pai saindo pro trabalho em dias de trovoadas.Eu rezava para um raio não cair na cabeça dele, porque era isso que minha mãe dizia que aconteceria comigo se eu fugisse de casa para tomar banho de chuva em dias de temporais. Vejo ainda, o brilho do entusiasmo, felicidade, alegria e eterno encantamento com a vida, refletido em meu rosto de mulher madura, com algumas atitudes nem tão adultas.




...E vejo a chama da esperança reacendendo a cada palavra de consolo, incentivo, gestos de carinho, amor,amizade, secam lagrimas, arrancando facilmente um franco sorriso.

Mas devo confessar: Muitas vezes, minha sensível  alma de artista me castiga.Sinto lanças me ferindo  quando ouço palavras agressivas, e vejo grandes sofrimentos, tragédias...  tenho dificuldades de aceitar minha fragilidade perante a severidade do mundo.Ver a miséria fazendo sucumbir  a dignidade das pessoas. Cavalos trotando mancos, cansados, puxando carroças quando deveriam estar  livres nos campos. Cachorros de rua, famintos, doentes sendo chutados... tantas outras coisas mais ou menos cruéis me incomodam e aos poucos, apagam meu  brilho, enfraquecendo  minha fé na humanidade. 













Cada ano que carrego, aumenta a saudade de pessoas  queridas que perdi ou passaram deixando boas lembranças. As mulheres que admiro, as que  me serviram de exemplos,os   homens da minha vida. Meu pai,o tio Osvaldo, meu sogro,meu marido, o meu primeiro namorado aos 13 anos,Ivan Dreher dos Santos,nunca me beijou, nunca o esqueci. Me namorou para ajudar-me a burlar a ditadura familiar. Me buscava em casa, levava nas festas... Meu primeiro baile de carnaval. De longe, me observava  dançando com minhas amigas a noite inteira. O tempo passou, outros me convidaram pra dançar,num bailado que durava o tempo de uma música, um sonho  ou as vezes,uma bela historia. No livro  da minha vida, meu marido esta presente em tantos capítulos. Abriu portas, trouxe tantas alegrias para esta longa historia. Meu sogro querido, artista da ourivesaria, antes de falecer me chamou em seu quarto, me doou algo que garante minha independência, pedindo apenas  que eu nunca abandone a arte. Pela natural regra da vida,outras pessoas queridas faltarão,ou naturalmente serão  afastadas, deixando um colorido especial nas lembranças,  ou fazendo a vida ficar  mais desbotada. Por esta percepção, dou valor a cada minuto da minha existência. Fujo de pessoas que desperdiçam vida, oportunidades e convívio rico de momentos preciosos, justificando nossa passagem no planeta, tornando a vida especial, nos fazendo ser lembrados, expandindo nossos pensamentos. Economizam palavras doces, gestos carinhosos, extinguindo  a magia dos relacionamentos. Me aproximo daquelas pessoas que extraem a  da vida o melhor. Brigo com garra quando sou injustiçada. Luto somente por coisas  que de fato me pertencem e  são de  direito. Mas não manipulo pessoas e destinos,  espero passiva vir a mim naturalmente aquilo   que mereço, ou o que considero presentes da vida. Não arranco nada dela nem de ninguém. Dispenso tudo que me traga sofrimento,exigindo disputas, justificativas e indignas batalhas. Mas aceito as coisas boas que me são  proporcionadas por conquistas, méritos ou dadivas do universo, aumentando minhas genuínas lembranças que me tornam uma pessoa realizada e completa. 










(esta imagem é da internet, só tenho uma foto de quando era criança.Eu pegava todas para recortar, pintar por cima e estragava tudo. Minha professora da primeira serie dizia que eu era hiperativa ,minha mãe dizia que eu era uma peste, mas quando pensava que eu não estava escutando, elogiava minhas "obras" desde muito cedo toda a família sabia que eu seria artista ) 








...Sempre fui assim esquisitinha  desde criança, por isso, ficava esperando o dia do meu aniversário sem falar nada a ninguém. Queria saber se seria lembrada. Minhas irmãs eram diferentes, (normais) faziam campanha o ano inteiro, colocando bilhetinhos na geladeira, dentro dos sapatos do meu pai. Ai...bem... do meu aniversário quase sempre esqueciam. Eu chorava escondida, depois me recompensavam com presente, abraços...  Mas ficou em mim aquela sensação  de  ter sido esquecida. 

Nunca faço festa de aniversário nem revelo esta data a  ninguém. Comemoro discretamente, somente  com minha família. Num certo dia 5 de dezembro, meu anjo desceu do céu, lhe  pedi para encontrar alguém que me colocasse sempre em primeiro lugar, e nunca esquecesse do meu aniversário. Há 33 anos eu sempre apago uma velinha ao lado do meu anjo da guarda aqui na terra,  junto com a filha maravilhosa que ele me deu. Meu maior presente!





Neste aniversário, farei um pedido ao meu anjo da guarda que há de descer do céu para realizar meu pedido: Que  os milhares de relógios do mundo, despertem todas as  pessoas de seus pesadelos, para que vivam como se fizessem parte de um mundo encantado.










Paizinho querido, era tanto trabalho para nunca deixar faltar nada, mãezinha, a casa sempre tão cheirosa, arrumada, comida gostosa, roupa limpinha... Todos os dias, eu sei que em nenhum momento vocês me esqueceram e desejam sempre  o melhor pra mim. Minhas irmãs, batalhadoras, guerreiras.. me ensinaram  a escrever bilhetinhos de aniversário: Publiquei livros, inventei historias, estou escrevendo uma cartinha de aniversário. 


Muitas pessoas encontrei no meu  caminho, algumas  permanecem ao meu lado,outras, deixaram boas lembranças, ou apenas passaram. Me identifico  com aquelas que pensam como eu. Respeito todas, admiro principalmente as que são melhores do que eu. Mas todas deixam algum encimamento. 
                       

A vida é curta e eu curto a vida! 

 


















Amanhã apago mais uma velinha! 






 








quinta-feira, 12 de novembro de 2015

                                         UM PATO OU UM CISNE?










O pato branquinho,  no mundo de Yara era o lago  do cisne. Julgando-se feio, nadava ao lado de outros patinhos, fazendo-lhe crer que Yara mentia.  O pato, pateta. quis mostrar-se cisne aos olhos de todos, exibido-se pra sereia.(que pateta não era)  Ele confidenciou aos amigos do lago,   que em cisne Yara o transformara. Provou inveja dos outros patinhos quaquando em seus  ouvidos que Yara mentia.  O pato pateta perguntou ao lago, se com cisne o pato se parecia. Ouviu uma voz pedindo-lhe para se aproximar. Então, o pato enxerga  refletido nas águas  do lago a imagem de um horroroso jacaré, que também  o olhava.  O pato  teve certeza de que Yara mentia. Passou muito tempo até a chuva inundou a terra com gotas de yara. O pato tropeçou numa poça. A água turva, não definia nenhuma imagem aumentando a dúvida do pato. Ofendida, Yara mergulhou no fundo do lago.Por breves instantes Yara imerge das profundezas das águas observando  os movimentos do pato,que de longe, também a observa. Aproveitando a oportunidade ele pergunta: -Mãe d’água,tu que vives num mundo encantado, só nadas ao lado de generosas tilápias, carpas,  dourados peixinhos, tens a proteção de Netuno,  prateada cortina te oculta, tornando-te um mistério. Sabeis dizer-me  se sou um pato, um cisne ou um monstro? Yara, apressada em retornar  ao seu  etéreo mundo, responde triste, porem serena: Amigo, tu te transformas naquilo em que acreditas.
DD