A ideia era escrever enredos usando fortes personagens femininas, enfatizando o aspecto emocional de cada uma delas.
Me surpreendi percebendo interpretações machistas mesmo dentro do surrealismo. Tanto uma cigana beduína que vagava por desertos e vales contando historias, quanto a sereia atraindo homens com seu canto, ambas, foram consideradas vadias (putas) por alguns leitores.
Em nenhum momento explicitei ou sugeri promiscuidade ou liberação sexual destas personagens. No entanto, o fato de serem mulheres sensíveis, delicadas maternais e também libertarias e aguerridas, não subjugadas as suas paixões e condições estabelecidas nos contos de fadas, elas não esperam por um príncipe salvador, transgredindo as normas do mundo encantado.
O mestre protetor da cigana, sábio e desprendido, orientou-a para que seguisse seu destino. idealista, ela o abandonou para ir em busca de liberdade, porem, nunca a encontrou, A liberdade utópica relacionada aos peregrinos ciganos, nada mais é do que uma infinita estrada, montando acampamentos e tendas a cada pausa de ânsia por caminhar.
Em contraponto, a sereia que foi uma valente índia guerreira, assassinada por seu pai e irmãos, foi jogada no rio, de onde os peixes a ressuscitaram transformando-a em uma dúbia criatura, metade peixe, metade mulher. Esta definição de mulher peixe, expressa a condição da mulher objeto, que é vista por alguns homens como um ser extremamente sensual, tendo sua imagem camuflada em sentimentos e medos dispersos numa postura de auto proteção.
Assim, o universo feminino, não se desvenda por homens com conceitos machistas, cujas impressões não ultrapassam aparências, desejando possuir algo alem de suas capacidades de compreensão.
O etéreo mundo encantado de onde busco tais personagens, imersosem anseios e questionamentos particularmente femininos, sustentam-se num nível sensível, em que a poesia aflora nos poros das personagens, antes das palavra formando metáforas e enigmas jamais desvendados por apegos e lógicas.
Denize Domingos
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
cartinha ao Papai Noel
Papai Noel,
Acreditava em fadas, gnomos, duendes, anjos,.. tenho medo de bruxas do mal, diabo e demônios. Mas nunca confiei muito neste velhinho de vermelho.
Sempre fui maluquinha, mas muito observadora.Percebia próximo ao natal meu pai fugindo aos sábados, retornando com ar mais feliz do que de costume, tentando esconder os pacotes que trazia.
Em todos natais, as crianças da vizinhança se encontravam la em casa, para ver e brincar com nossos presentes (os mais lindos lançamentos da Estrela).
Eu sabia que o bom velhinho lá em casa era o meu pai e me entristecia ver outras crianças com brinquedos mais simples,porem, trazidos pelo Papai Noel.
Eu queria que meu pai não precisasse trabalhar tanto para comprar nossos brinquedos e ficava com pena de algumas crianças por não receberem presente algum.
As luzes do pinheirinho enfeitado na rua, piscavam a noite inteira, ascendendo em meu coração o espirito do natal. No armazém próximo, vendiam sonhos... Junto com merengues, vinham bonequinhos para montar o presépio. Convencia minhas amigas daqueles doces serem mais saborosos que outras guloseimas.Em poucos dias o presépio ficava completo e todas as noites a criançada se reunia em torno do pinheiro. Olhávamos não as luzes coloridas, piscantes, mas para o céu, procurando a estrela guia, anunciando o nascimento de Jesus.
Ensaios da coletânea Memórias de Luíza
DD
Família Dias, Hino de Reis
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
AO MEU ANJO DA GUARDA:
Dizem...que no dia do aniversário, nosso anjo da guarda realiza um pedido. Não tenho problemas com minha idade, me despeço dos 52 anos de questionamentos, vivências e nenhuma certeza absoluta, saudando o novo tempo que me aguarda. Diante do espelho não me assusto, no fundo dos meus olhos enxergo o mesmo brilho de quando era menina: A criança pequena, esperando a mãe, aflita por ter ficado sozinha, preocupada com meu pai saindo pro trabalho em dias de trovoadas.Eu rezava para um raio não cair na cabeça dele, porque era isso que minha mãe dizia que aconteceria comigo se eu fugisse de casa para tomar banho de chuva em dias de temporais. Vejo ainda, o brilho do entusiasmo, felicidade, alegria e eterno encantamento com a vida, refletido em meu rosto de mulher madura, com algumas atitudes nem tão adultas.
...E vejo a chama da esperança reacendendo a cada palavra de consolo, incentivo, gestos de carinho, amor,amizade, secam lagrimas, arrancando facilmente um franco sorriso.
Mas devo confessar: Muitas vezes, minha sensível alma de artista me castiga.Sinto lanças me ferindo quando ouço palavras agressivas, e vejo grandes sofrimentos, tragédias... tenho dificuldades de aceitar minha fragilidade perante a severidade do mundo.Ver a miséria fazendo sucumbir a dignidade das pessoas. Cavalos trotando mancos, cansados, puxando carroças quando deveriam estar livres nos campos. Cachorros de rua, famintos, doentes sendo chutados... tantas outras coisas mais ou menos cruéis me incomodam e aos poucos, apagam meu brilho, enfraquecendo minha fé na humanidade.
Cada ano que carrego, aumenta a saudade de pessoas queridas que perdi ou passaram deixando boas lembranças. As mulheres que admiro, as que me serviram de exemplos,os homens da minha vida. Meu pai,o tio Osvaldo, meu sogro,meu marido, o meu primeiro namorado aos 13 anos,Ivan Dreher dos Santos,nunca me beijou, nunca o esqueci. Me namorou para ajudar-me a burlar a ditadura familiar. Me buscava em casa, levava nas festas... Meu primeiro baile de carnaval. De longe, me observava dançando com minhas amigas a noite inteira. O tempo passou, outros me convidaram pra dançar,num bailado que durava o tempo de uma música, um sonho ou as vezes,uma bela historia. No livro da minha vida, meu marido esta presente em tantos capítulos. Abriu portas, trouxe tantas alegrias para esta longa historia. Meu sogro querido, artista da ourivesaria, antes de falecer me chamou em seu quarto, me doou algo que garante minha independência, pedindo apenas que eu nunca abandone a arte. Pela natural regra da vida,outras pessoas queridas faltarão,ou naturalmente serão afastadas, deixando um colorido especial nas lembranças, ou fazendo a vida ficar mais desbotada. Por esta percepção, dou valor a cada minuto da minha existência. Fujo de pessoas que desperdiçam vida, oportunidades e convívio rico de momentos preciosos, justificando nossa passagem no planeta, tornando a vida especial, nos fazendo ser lembrados, expandindo nossos pensamentos. Economizam palavras doces, gestos carinhosos, extinguindo a magia dos relacionamentos. Me aproximo daquelas pessoas que extraem a da vida o melhor. Brigo com garra quando sou injustiçada. Luto somente por coisas que de fato me pertencem e são de direito. Mas não manipulo pessoas e destinos, espero passiva vir a mim naturalmente aquilo que mereço, ou o que considero presentes da vida. Não arranco nada dela nem de ninguém. Dispenso tudo que me traga sofrimento,exigindo disputas, justificativas e indignas batalhas. Mas aceito as coisas boas que me são proporcionadas por conquistas, méritos ou dadivas do universo, aumentando minhas genuínas lembranças que me tornam uma pessoa realizada e completa.
(esta imagem é da internet, só tenho uma foto de quando era criança.Eu pegava todas para recortar, pintar por cima e estragava tudo. Minha professora da primeira serie dizia que eu era hiperativa ,minha mãe dizia que eu era uma peste, mas quando pensava que eu não estava escutando, elogiava minhas "obras" desde muito cedo toda a família sabia que eu seria artista )
...Sempre fui assim esquisitinha desde criança, por isso, ficava esperando o dia do meu aniversário sem falar nada a ninguém. Queria saber se seria lembrada. Minhas irmãs eram diferentes, (normais) faziam campanha o ano inteiro, colocando bilhetinhos na geladeira, dentro dos sapatos do meu pai. Ai...bem... do meu aniversário quase sempre esqueciam. Eu chorava escondida, depois me recompensavam com presente, abraços... Mas ficou em mim aquela sensação de ter sido esquecida. Nunca faço festa de aniversário nem revelo esta data a ninguém. Comemoro discretamente, somente com minha família. Num certo dia 5 de dezembro, meu anjo desceu do céu, lhe pedi para encontrar alguém que me colocasse sempre em primeiro lugar, e nunca esquecesse do meu aniversário. Há 33 anos eu sempre apago uma velinha ao lado do meu anjo da guarda aqui na terra, junto com a filha maravilhosa que ele me deu. Meu maior presente!
Neste aniversário, farei um pedido ao meu anjo da guarda que há de descer do céu para realizar meu pedido: Que os milhares de relógios do mundo, despertem todas as pessoas de seus pesadelos, para que vivam como se fizessem parte de um mundo encantado.
Paizinho querido, era tanto trabalho para nunca deixar faltar nada, mãezinha, a casa sempre tão cheirosa, arrumada, comida gostosa, roupa limpinha... Todos os dias, eu sei que em nenhum momento vocês me esqueceram e desejam sempre o melhor pra mim. Minhas irmãs, batalhadoras, guerreiras.. me ensinaram a escrever bilhetinhos de aniversário: Publiquei livros, inventei historias, estou escrevendo uma cartinha de aniversário.
Muitas pessoas encontrei no meu caminho, algumas permanecem ao meu lado,outras, deixaram boas lembranças, ou apenas passaram. Me identifico com aquelas que pensam como eu. Respeito todas, admiro principalmente as que são melhores do que eu. Mas todas deixam algum encimamento.
O pato branquinho,
no mundo de Yara era o lago do cisne. Julgando-se feio, nadava ao lado de
outros patinhos, fazendo-lhe crer que Yara mentia. O pato, pateta. quis mostrar-se cisne aos
olhos de todos, exibido-se pra sereia.(que pateta não era) Ele
confidenciou aos amigos do lago, que em cisne Yara o transformara. Provou inveja
dos outros patinhos quaquando em seus ouvidos
que Yara mentia.O pato pateta perguntou
ao lago, se com cisne o pato se parecia. Ouviu uma voz pedindo-lhe para se aproximar.
Então, o pato enxergarefletido nas
águas do lago a imagem de um horroroso
jacaré, que também o olhava.O pato teve certeza de que Yara mentia. Passou muito
tempo até a chuva inundou a terra com gotas de yara. O pato tropeçou numa poça.
A água turva, não definia nenhuma imagem aumentando a dúvida do pato. Ofendida,
Yara mergulhou no fundo do lago.Por breves instantes Yara imerge das profundezas
das águas observando os movimentos do
pato,que de longe, também a observa. Aproveitando a oportunidade ele
pergunta: -Mãe d’água,tu que vives num mundo encantado, só nadas ao lado de
generosas tilápias, carpas, dourados
peixinhos, tens a proteção de Netuno, prateada cortina te oculta, tornando-te um
mistério. Sabeis dizer-me se sou um
pato, um cisne ou um monstro? Yara, apressada em retornar ao seuetéreo mundo, responde triste, porem serena: Amigo, tu te transformas naquilo
em que acreditas.
DD
domingo, 11 de outubro de 2015
HOMENAGEM AO DIA DA CRIANÇA
Morre aos 89 anos de idade, dona Luíza de Oliveira Santos, a gentil e misteriosa senhora escritora de fábulas infantis, usando pseudônimos. Foi encontrada morta em seu pequeno quarto em New York, onde dividia um apartamento com outros artistas remanescentes dos anos 70. Laudos de peritos confirmam morte por overdose de Paz e Amor. Suas obras surrealistas, eram ilustradas com psicodélicas manchas de aquarela, acidentalmente derrubadas sobre manuscritos. Formavam lindas e coloridas imagens, revelando um etéreo mundo ausente de definições e formas, onde a escritora se inspirava. Seus livros nunca fizeram sucesso nem foram vendidos nas livrarias, porem, encantavam crianças que nada entendiam sobre o conteúdo das obras, preferindo penetrarem em suas páginas, interagindo com as fantásticas personagens, vivenciando lindas aventuras. A ultima mancha que Luíza vislumbrou espalhada sobre um bloco de papel couche, foi algo semelhante a uma delicada borboleta azul sentindo o derradeiro hálito da infinita liberdade, Ao lado de Luíza em seu ultimo suspiro, a delicada criatura, bateu asas e voou, atravessando o vidro da irrestrita janela. Entre cintilantes flocos de neve. a mancha azul se distanciava, transformando a fria e encantadora paisagem em doce poesia. Luíza plenamente lucida, despediu-se deste mundo, deixando uma janela aberta, de onde observava tudo, enquanto alinhavou pensamentos, até seus últimos dias. Suavemente, desfez-se os laços que a mantinham nesta dúbia realidade. Ela voou livre ao lado da borboleta, naquela tarde acinzentada, aquecendo o impreterível manto do seu ultimo e rigoroso inverno, que não conseguiu congelar as suas asas. Ao lado do pálido bloco de papel, demonstrando infinitas possibilidades sugeridas no branco espaço de onde a borboleta se libertou, debruçado sobre o teclado do computador, repousava serenamente o corpo de Luíza. Antes de remove-lo, foram lidas suas palavras...
PEDIDOS À UMA FADA:
Que uma vida inteira, não caiba dentro de um livro
e a poesia de viver seja mais encantador que todos os versos.As histórias mais lindas, não devem ser
mais belas do que as lembranças de momentos vividos, guardados
no coração, e não nas paginas de um livro.
Denize Domingos
Neil Young - My my, hey hey
Minha canção de embalar!
domingo, 20 de setembro de 2015
ENTRE NUVENS E METEOROS
Quero descobrir se existe vida em marte. Ja me perdi e parti tantas vezes... como um grão de areia, estilhaçado na poeira cósmica, vagando na imensidão do universo. Desejo me recompor e voltar ao meu planeta. No caminho, sou arrastada pela inconstância da brisa, ressurgida em cada verso. Penso em como seria sair voando pelo espaço, de carona com um varonil meteoro, ou dependurada na rítmica cadencia de uma impetuosa estrela. Em meio a tantos pontos de luz, sou a minuscula partícula brilhando incessante, oculta entre nuvens, de algodão ou fumaça, constantemente pairando sobre o céu em barulhentas cidades. Me apago, tento dormir, me despeço para sempre de todos estes desconhecidos planetas, vacilante em cada amanhecer, quando desperto dos sonhos. Embalada sobre esvoaçantes folhas, compreensivas, cautelosas...elas me aconselham e conduzem de volta pra casa. Misteriosa, a noite ressurge, espio-a pela janela. A lua, estimula e encoraja, sugerindo um solitário bailado. ao longe, observado por um previsível e lento cometa que também espera que um dia isso tudo acabe, ou que o planeta terra seja invadido por evoluídos seres alienígenas.
MILAGRE?
Não sei, foi a estrela que caiu do espaço, aqui no meu blog, bem assim, no lado esquerdo
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Oração da Guerreira !
Não
permita Deus, que eu abandone as brancas ovelhas, para enfrentar injustas
batalhas, contra lobos, raposas,dragões invisíveis e gladiadores imperceptíveis
em meio a inocentes paisagens.
Que
a vaidade e egos alimentados com agrados disfarçando a inveja, sucumbam a
nobres sentimentos, desnudando carapaças forjadas em preconceito e cinismo.
Que
as rígidas armaduras e escudos protegendo incógnitas sentinelas a espreita de
oportunidades de ataque, não destruam
pontes e elos, ligando caminhos e destinos.
Que eu tenha
sabedoria, grandeza,serenidade, e discernimento para identificar meus inimigos,
me protegendo deles, os vencendo, sem inebriar meus olhos,confundindo minha
certeza, empunhando minha espada contra quem pretende me proteger.
Que eu use sempre
minha força, determinação, entusiasmo, criatividade e talento para criar
mágicas realidades paralelas a este mundo insensível e competitivo, conduzindo meu rebanho
por caminhos encantados, aumentando-o a cada dia.
Que este mágico
portal, onde emana meus pensamentos, filtre também os teus, que me visita ou
espiona, trocando nossas energias, transmutando-as em compreensão mútua de diferentes realidades. Pois a missão de um artista, não difere do pastoreio,
acertando passos, abrindo chagas com conceitos ou tosas, resultando em novelos
nas mãos de hábil tecelã que fara tudo valer a pena.
Deitada na grama, debaixo da saia rodada ela guarda seus desejos , que não foram proibidos. Nas ruínas de uma realidade distante, sobrevivem alguns guardiões do passado, lembrando de um heroico e livre exercito de homens e mulheres que viveram e defendem os mesmos sonhos.