Lenda de origem Tupi Guarani, explica a criação do universo segundo crenças espirituais de muitos povos indígenas. Esta história bastante conhecida, tornou-se de domínio publico.
Neste espaço de arte e poesia, convido a entrarem nestas paginas como se aqui fosse uma casa de rezas. Sob o manto da espiritualidade que envolve o universo xamã,estaremos reunidos celebrando a palavra, ânima do povo Guarani.. Honro a tradição mantendo viva a história a mim transmitida oralmente por rezadores e caciques, Tito Vialhalva e Júlio Ortiz, quando estive nas aldeias Guiraroka- Dourados, e Laranjeira Nhanderu - Rio Brilhante, Mato Groso do Sul, onde convivi com os Guaranis Kaiowás , tão amáveis e gentis a ponto de tornarem-me cativa de suas crianças.
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Organizadora:
Denize Domingos
Ilustrações e edição de imagens; Denize Domingos
Fotografias: DD. Joana Ortiz, e clube de fotos
Agradeço ao meu companheiro, Gerson jung e minha filha Ananda, à Madre Joana Aparecida Ortiz , que através do CIMI Conselho Indigenista Missionário, apresentou-me ao mundo xamã com toda magia, sofrimento e encanto que os povos indígenas me fizeram ver e sentir.
À noite, quando fecho meus olhos, a brisa me traz a fumaça exalada das brasas das fogueiras. Escuto a voz dos rezadores em seus cantos e orações. Minha alma sai a passear, desprendida de mim visita tekohas por onde estive. Em sonhos, abraço cada criança e beijo as mãos dos anciãos que me contaram esta história escrita aqui. Saudades dos dias em que convivi na fraternidade das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida, das orações e da paz compartilhada.
Lembranças do quarto ao lado da capela, das noites de ventania, quando os galhos de uma arvore açoitava o vidro da janela. E as sombras... faziam desenhos tão lindos!
Em noites de verão, o cantar dos pardais abstraíram a paz do meu silêncio.
Esperei o tempo das folhas dos plátanos alaranjarem, e meus cabelos cuspiram salamandras, do meu coração, surgiram aves de fogo.
Queridos indiozinhos, vocês são pontinhos de luz brilhando neste Universo infinito. Eu gostaria de ter vocês aqui comigo, próximos a uma grande fogueira. As histórias sagradas têm mais força contadas à noite, celebradas com o elemento fogo. Salamandras aquecem corações e clareiam o caminho dos espíritos ancestrais para que venham nos abençoar enquanto o conhecimento se propaga. E foi assim que aconteceu, numa noite em que as estrelas chegaram bem perto de mim, no tekoha dos Guaranis Kaiowas, em torno de uma fogueira, um rezador me contou esta história, pedindo que eu a transmitisse a vocês. Mas antes de virar esta página, peçam aos seus pais que acendam uma vela na representação do elemento fogo.
Foram noites frias no mês de agosto, aquecidas por fogueiras, danças circulares e histórias. O clarão da lua iluminava a casa de reza e os cantos sagrados se faziam doces murmúrios de Yamandu. Esta é uma história sagrada, muito antiga. Foi transmitida oralmente, de geração a geração, quando as crianças escutavam histórias em torno das fogueiras. Algumas coisas foram se modificando, mas a essência permanece a mesma.
Foi num tempo em que não havia tempo nem espaço, no vazio do mundo fez-se a criação do universo.
Um pontinho de luz brilhou na imensidão do espaço vazio.
O caos destruiu tudo que existia. Restou apenas ele: Yamandu, luz divina.
Nem tempo, nem som!
O caos destruiu tudo que existia. Restou apenas ele: Yamandu, luz divina.
Nem tempo, nem som!
Yamandu era luz e força irradiando energia.
Mais luminoso do que qualquer sol, ele foi o primeiro ancestral de todos os ancestrais do mundo.
Embalado no silêncio do sono profundo, adormeceu e sonhou. Viu-se Iluminado no clarão do próprio brilho, propagando o poder que dentro dele havia.
Yamandu quis conhecer sua dimensão e recolheu-se dentro de si.
Cresceu! Cresceu! Percebendo-se vasto.
Cresceu! Cresceu! Percebendo-se vasto.
Sentiu-se grandioso, quis saber qual era o seu tamanho e se transformou em uma ave de sabedoria, a primordial coruja.
E no corpo de coruja, Yamandu viu-se dentro da Grande Noite, envolvido na imensidão das sombras.
Yamandu transformou-se em outro ser, leve e ágil: o colibri, Mainu, na língua guarani. Habitou o corpo do pequeno pássaro e conseguiu voar. Voou em torno de si, conhecendo sua própria dimensão, vendo-se grandioso.
Na paz do silêncio profundo, Yamandu quis saber mais sobre ele próprio. Recolheu-se em seu interior, desejando saber qual era sua totalidade.
O raio de luz se expandiu, e ele transformou-se na terceira ave: o gavião real, Macauã. Voou em várias direções, alcançando todas as dimensões do espaço, chegando aos lugares mais altos que nenhum outro ser poderia alcançar. No corpo do Macauã, Yamandu enxergou seu tamanho, percebendo a vastidão que dentro dele havia.
Neste momento, ele percebe que seria necessário criar mundos.
Fascinado com as maravilhas que poderiam existir, recolheu-se na harmonia do sagrado silêncio. Suspirou em êxtase, emitindo o primeiro som. Sua voz? Foi um canto de alegria ecoando no vazio do mundo!
E a partir deste magnifico canto, as estrelas foram surgindo, preenchendo a vastidão que ele trazia dentro dele. Yamandu, perplexo diante do lume colorido das estrelas,
continuou a cantar, preenchendo o espaço com muitas
galáxias, planetas, astros e nebulosas.
E a partir deste magnifico canto, as estrelas foram surgindo, preenchendo a vastidão que ele trazia dentro dele. Yamandu, perplexo diante do lume colorido das estrelas,
continuou a cantar, preenchendo o espaço com muitas
galáxias, planetas, astros e nebulosas.
Ondas sonoras emitidas na voz de Yamandu foram formando o Universo.
Do pensamento, ele compôs a alma: Anhang ou aña. A alma animou a matéria, surgiu então Anhandeci. No significado da existência divina, Yamandu, criou o Universo em toda a vastidão dos mundos que podemos imaginar. Das nebulosas foram surgindo vapores, neblinas, chuvas e águas límpidas, representado a emoção das almas. Neste momento, Yamandu cria Iara, a Mãe das Águas doces, para proteger todos os rios, lagos e cachoeiras que se formariam das chuvas e vertentes na terra.
Sentindo-se pleno, o primeiro ancestral dos ancestrais, recolheu-se na paz que há dentro dele, potencializado em fonte de energia.
Numa explosão de luz divina, Yamandu se transformou no Grande Sol, Coaracy, e do ventre deste grande sol nasceu Tupã, gerado no coração de Yamandu, filho do amor divino.
Tupã controla as forças da natureza, raios, relâmpagos, trovões, tempestades... Começa a cantar junto com o seu criador, ajudando-o a criar outros mundos, porque Yamandu é eterno e infinito. Numa noite de primavera, a brisa embalou Tupã em seus braços, fazendo o deus dos índios adormecer sobre as nuvens. Tupã sonhou com a nossa Mãe-Terra. Criou do seu próprio pensamento um cachimbo sagrado, o penteguá.
Aspirou um pó encantado, emanou o espírito da Terra, soprando a fumaça liberada de dentro dele.
O espírito da futura Mãe-Terra, tão leve quanto o ar, viajou no espaço, alongando-se em movimentos espirais, até transformar-se numa serpente luminosa.
Flutuou, sinuosa, durante muito tempo, até escolher o lugar onde queria crescer.
Naquele lugar, a serpente se enroscou e adormeceu, e foi se transformando numa tartaruga, num imenso jabuti.
Ela deixou sinais luminosos por onde andou. Tupã seguiu o flash de luz e encontrou o Espírito da Terra na forma de tartaruga. Tupã, que comanda raios, trovões, ventos e tempestades, evocou a força dos quatro elementos da Natureza: Água, Terra, Fogo e Ar. Olhando para o grande animal, Tupã desenhou no casco da tartaruga o majestoso manto bordado com lindas montanhas, vales, cachoeiras, rios e todas as maravilhas do Planeta Azul. Depois de ter feito o manto que vestiria a Mãe-Terra.
Tupã pensou em pôr alguém ali, para desfrutar daquele paraíso. Acalentado num sonho de amor divino, do seu próprio coração, Tupã criou o primeiro ancestral humano: Avadiquaquá, o primeiro adornado, o Homem Alado.
Tupã pensou em pôr alguém ali, para desfrutar daquele paraíso. Acalentado num sonho de amor divino, do seu próprio coração, Tupã criou o primeiro ancestral humano: Avadiquaquá, o primeiro adornado, o Homem Alado.
Tupã, divindade de imensa sabedoria, disse ao Homem Alado que ele deveria habitar a Terra. Conhecer tudo que havia no Planeta Azul, saber o que ainda precisava ser feito e continuar a criação.
Entristecido, o Adornado respondeu:
— Eu sou um homem com asas, sei voar nas alturas, mas não consigo habitar a Terra.
O Criador explica ao Adornado:
— Fostes criado do meu coração, adornado com asas douradas para que saibas o valor da liberdade. Dei-lhe asas para chegares aos quatro portais da Terra: Norte, Sul, Leste, Oeste. Em cada lugar encontrarás um Nhandeara, um guia espiritual que ensinará tudo que precisa aprender.
Ore Ma Roota Para Owai CD "Mborai Porã (cantos sagrado Guarani)
O primeiro ancestral do homem voltou a Terra, dirigindo-se ao Sul. Encontrou a palmeira azul: Endovidju.
O homem com asas perguntou à palmeira se ela poderia ensinar-lhe a viver na Terra. A planta estendeu suas palmas, abrindo os braços pra abraçá-lo, dizendo-lhe que entrasse dentro dela para aprender a viver na Terra. O Adornado entrou na palmeira, tornando-se ela própria. Sentiu as raízes fixadas no solo, proporcionando a sensação de segurança. Gostou de estar ali! Se alimentou da seiva que vinha da Mãe-Terra e gostou de sentir a brisa acariciar suas folhas e a chuva refrescando seus galhos... Permaneceu aconchegado no tronco da planta até que ela falou:
— Já aprendeu os ensinamentos que eu poderia transmitir, agora sai.
O Adornado saiu do interior da palmeira, seguiu adiante, em direção ao Norte. Lá
encontrou a Grande Rocha. Ele a olhou e perguntou se poderia ensinar-lhe alguma coisa.
E a rocha se abriu diante do Adornado, deixando-o entrar nela. Fixado na pedra. O primeiro ancestral
— Querido homem Adornado, já aprendestes tudo que eu podia ensinar-te, agora sai, segue tua jornada.
O Adornado saiu do interior da rocha e voou em direção ao Oeste. Lá encontrou a Onça Ancestral, Yauaretê, pedindo a ela que lhe ensinasse alguma coisa sobre viver na Terra.
A onça pintada permite que o Adornado entre dentro dela.
No corpo da onça, ele se transforma no animal. Pela primeira vez, sentiu o cheiro da terra, o aroma das plantas, diferenciando cada uma delas.
Com olhos de onça viu o Planeta Azul movendo-se lentamente, e pisou na terra sentindo as quatro patas apoiadas no chão.
Andou tão levemente, como se o corpo flutuasse, sem fazer ruídos. E correu velozmente, como se precisasse alcançar a presa que a alimentaria.
Sentiu prazer em estar na terra. Mas a onça já havia lhe ensinado muito, e falou:
— Vou deixar-te aqui, ao pé da montanha, no Leste. Agora sai!
— Meu querido, eu sou o Espírito da Terra.
O adornado pede que lhe ensine a viver na Terra. A serpente não respondeu! Em silêncio, foi se movendo, recolheu um pouco da poeira que o vento soprava e o barro que a chuva molhou.
— Agora entra dentro deste corpo!
O homem alado entrou no corpo de barro e pela primeira vez conseguiu andar. Experimentou a sensação de apoiar-se sobre as pernas. Caminhou em direção à entrada da gruta por onde adentrava a luz do sol brilhando lá fora. Com olhos de cristal, enxergou todo o esplendor do horizonte.
Emocionado, percebeu o quanto a Terra era linda, e do seu coração saía um canto em louvor a Nhandessi, espírito da nossa Mãe-Terra.
Emocionado, percebeu o quanto a Terra era linda, e do seu coração saía um canto em louvor a Nhandessi, espírito da nossa Mãe-Terra.
A grande mãe, Nhandessi, disse ao Adornado:
— Tu és meu primeiro filho, o primeiro homem a pisar na terra, fostes criado do coração de Tupã para cuidar de mim e habitar este planeta. Preserve tudo que existe aqui!
Adornado, tens o poder que vem de mim, da própria Terra, a qual veste tua alma. Tens também o poder das águas, das pedras e das plantas.
Esse é o presente que te dou para ser usado com sabedoria, juntamente com o poder maior, recebido de Yamandu e Tupã. Cada palavra que sair da tua boca será um espírito vivo.

O Adornado agradeceu os ensinamentos da Mãe-Terra. Pensou sobre tudo que havia aprendido. Caminhou contemplativo observando as maravilhas criadas por Tupã. O Adornado enxergou a beleza em sua essência. Olhou para o azul do céu e exclamou uma palavra:
– Arara!
Surgiu diante dele a ave colorida, primeiro pássaro azul.
Espantado, ele disse:
- Linda! Arrara!
Nasceu outra ave, coberta por penas vermelhas.
– Tucano! Mainú! Araponga! Caturrita! Barreiro! Saracura!
Das palavras, o Adornado fez nascerem muitos pássaros coloridos, voando nos ares em contraste com o azul do céu.
Maravilhado com o dom recebido, foi falando muitas palavras, e cada uma delas trazia um novo ser.
– Pirarucu!
— Tainha! Lambari! Curimba!
— Tainha! Lambari! Curimba!
E nasceram outros peixes, habitando as águas de Iara. O ancestral continuou andando, eufórico por estar povoando o planeta com diversos animais. Exclamava outras palavras, e da sua boca foi se completando o reino animal.
– Panambi!
Nasceu a primeira borboleta, leve e fugaz, bailando pelos ares.
E ele foi cantando nomes, até o dia em que os seres do céu, da água e da terra foram todos criados. De volta a gruta, o Adornado reencontra o Espírito da Terra. Ele já havia aprendido muito e aproveitado bem o corpo que recebeu emprestado.
E ele foi cantando nomes, até o dia em que os seres do céu, da água e da terra foram todos criados. De volta a gruta, o Adornado reencontra o Espírito da Terra. Ele já havia aprendido muito e aproveitado bem o corpo que recebeu emprestado.
Disse a ela:
— Minha querida Nhandessi, sagrada alma da Mãe-Terra, vim devolver-lhe o corpo que recebi de ti. Aprendi a viver aqui e criei muitas maravilhas completando a criação de Tupã.
Nhandessi respondeu que não precisava devolver, o corpo pertencia a ele pra sempre.
Humildemente, o Adornado falou:
— Devolvi o corpo que outros seres me emprestaram depois que recebi deles ensinamentos. Devolvi o corpo da palmeira depois de ter sido alimentado e embalado em seus galhos, saí da rocha quando ela me pediu que saísse do seu corpo. Devolvi também o corpo da onça depois que senti o cheiro da terra, andei com as quatro patas pisando no chão.
É justo devolver-te este corpo feito de poeira e barro, essência que veio de ti. Nhandessi, a sagrada Mãe-Terra, generosamente responde:
— Filho querido, gerado do coração de Tupã, dele recebeste a vida, eu te ofereci um corpo. Conhece mais um pouco sobre mim. Vive por mais tempo a tua experiência neste mundo, pisando na terra, experimentando sensações humanas.
Mas não desperdice o tempo!
Depois, quando estiveres cansado, voltarás ao meu ventre. Faça um buraco na terra e entregue a ela o manto que eu te dei.
E assim aconteceu, o primeiro Adornado desceu a montanha, onde o clarão ainda ilumina o interior daquela gruta e continuou sua jornada .
O Adornado aprendeu a viver na terra, continuou cantando e criando muitos seres. Nasceram novas criaturas, alegrando a vida das outras, tornando-se amigos. Ele criou também divindades conhecidas entre Tupi Guarani. Criou novos povos, homens diferentes em forma física e crenças para viverem em harmonia, com a tarefa de ajudarem os indígenas a cuidarem da Mãe-Terra, porque ela é plena e acolhe todos os filhos seus.
Chegaram e partiram muitas primaveras, deixando o colorido das floradas na lembrança de quem enxerga as belezas da vida com olhos de cristal.
Invernadas resfriaram a terra, despiram galhos das árvores de suas folhas douradas dançando ao ritmo da brisa. Vales e montanhas foram cobertos por geadas e neblina, convidando a descortinarmos o futuro pronunciado a cada amanhecer.
O sol sempre desponta aquecendo a superfície da Terra, alegrando corações.
Lento, o tempo passou...
Outono, a brisa soprava ares de nostalgia espalhando aromas agrestes na terra molhada com a chuva que caía. O Adornado já havia aprendido tudo que a experiência humana poderia ensinar a um homem já cansado de viver aqui. Ele andou em direção ao horizonte, encontrou o infinito. Sentiu o barro vermelho grudar em seus pés. Lembrou que sua forma física havia sido emprestada. Ajoelhou-se, chorou ao olhar o céu. As gotas da chuva acarinhavam seu rosto, as nuvens foram clareando e através delas os raios de sol surgiram outra vez.
Então, o Adornado, com as próprias mãos cavou um buraco na terra. Deitou sobre ela o manto que lhe vestia a alma, misturando-se novamente ao barro do qual foi criado. Livre das limitações da forma física, o espírito do homem se libertou. O espírito do primeiro ancestral humano transformou-se em luz divina. O corpo de Avadiquaquá, enquanto viveu na terra, foi habitado por Tupã, o Deus dos índios, que queria conhecer as emoções humanas e saber como é viver na Terra. Tupã é o grande sol, luz divina que tudo ilumina.
(Música Mbyá Guarani #2 - Jaguota Javy)
Arte e Ilustração
Denize Domingos
Denize Domingos
O Livro estará disponível em PDF
email; domingosdenize@bol.com.br
Trabalho sem fins lucrativos, valorizando a cultura indígena.
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